Crise de perspectiva

Troca de técnicos mostra que diretoria do Criciúma acredita no acesso, mesmo ignorando carências do elenco

Por Eduardo Madeira 20/09/2017 - 05:04 hs
Crise de perspectiva
Foto: Alex Alexandre | Criciúma E.C.

Ao demitir Luiz Carlos Winck, o diretor executivo do Criciúma, Edson Gaúcho estufou o peito e, convicto, afirmou que acredita no acesso a Série A. Da mesma forma, o substituto na casamata, Beto Campos disse em sua apresentação que o Tigre está em boas condições de lutar por uma das quatro vagas na Série A.

 

De fato, olhando a tabela de classificação friamente, não tem como discordar e a matemática deixa o clube chefiado por Jaime Dal Farra ainda entre os postulantes ao acesso. Mas, sejamos realistas: a chance de o Criciúma subir é pequena.

 

Diversos fatores contribuem para isso, como o elenco pouco qualificado e desequilibrado (aliás, parabéns a direção do clube que passou 2016 com apenas uma opção na lateral-esquerda, manteve neste ano e, depois de idas e vindas, vai encerrar a temporada sem um lateral de ofício no plantel) e o baixo investimento, que deixaram o clube para trás em comparação a outras equipes que se mostram mais qualificadas.

 

Somado a isso, vem a desastrosa gestão de Jaime Dal Farra, que consegue, de formas diferentes, conduzir duas demissões de treinadores das piores maneiras possíveis. Na saída de Deivid, se deixou influenciar por diretores e ainda comunicou a demissão do profissional após deixa-lo iniciar a semana de trabalhos visando nova partida na Série B.

 

Incomodado com as críticas, trouxe Edson Gaúcho, que se auto intitulou um “escudo” do presidente e que centralizaria as ações no Departamento de Futebol. Em uma decisão autoritária, sacou Winck do comando técnico da equipe, mentiu para a imprensa dizendo que foi em comum acordo e segue com o soberbo discurso de que sabe o que faz.

 

Tanto sabe, que trouxe Beto Campos, técnico que está no mesmo patamar do antecessor, com um esdrúxulo contrato até o fim da Série B – isso porque ele já está com pensamento voltado para o Gauchão de 2018, pelo Novo Hamburgo.

 

Que planejamento é esse? Está pensando em subir, mas traz um técnico só até o fim do ano? Começa do zero em 2018? E o quê Beto Campos tem de tão diferente em relação a Winck? Aí o traz fora do período de contratações, com o elenco já montado e pegando o bonde andando? Admito que já admiro Beto por assumir essa bomba.

 

A crise de perspectiva que afeta o Criciúma – e muitos clubes brasileiros – faz a direção achar que o time pode ir além de onde consegue realmente chegar. Edson Gaúcho e Dal Farra precisam ser honestos com o torcedor, virem a público e colocarem como meta chegar a pontuação necessária para não cair.

 

É pensar baixo? É. Não condiz com a grandeza do clube? Evidente que não. Mas é a realidade atual. O Criciúma não vai cair, mas ficar enganando o torcedor e enchendo de esperanças de que pode subir é pior. É melhor ser realista com quem é apaixonado pelo clube e suportar a pressão do que criar uma carga fora do normal para um elenco pra lá de limitado.

 

Sobre a troca na comissão técnica, sempre tive minhas críticas à forma que Winck trabalhava com o Criciúma e suas propostas de jogo – na última coluna, por exemplo, disse que ele se perdeu em suas convicções -, mas nunca neguei que estava tirando leite de pedra desse elenco. Analisar o trabalho dele pelos números é falácia e mascara muitos defeitos do time, só que é preciso colocar a mão na consciência e se perguntar: até onde ele poderia ir com esse time? E até onde Beto e qualquer outro técnico pode chegar? A resposta parece clara para todo mundo, menos para quem deveria ver.