Uma reclamação pertinente e um sonho impossível

Curta pré-temporada é, sim, razão de críticas

Por Eduardo Madeira 04/01/2018 - 22:30 hs
Uma reclamação pertinente e um sonho impossível
Foto: Fernando Ribeiro/Criciúma E.C./Arquivo

Na última semana, o preparador físico do Criciúma, Felipe Célia trouxe uma crítica – para muitos, uma reclamação – em entrevista coletiva que me deixou bastante intrigado. Ele fazia referência aos vários jogos na segunda quinzena de janeiro (poderão ser cinco em menos de 15 dias) e se disse preocupado com isso, adiantando, inclusive, um provável rodízio entre os titulares.

 

Houve quem considerasse uma afronta, afinal de contas, a temporada sequer começou e já há a tal reclamação. Vejo por outro lado, porém. É, sim, uma crítica bastante pertinente.

 

O elenco do Criciúma se apresentou no dia 27 de dezembro, 21 dias antes da estreia oficial diante do Figueirense, em 17 de janeiro. É um prazo curtíssimo, onde Lisca tentará colocar sua ideia de time em prática e o próprio Felipe precisará deixar os atletas em condições físicas aceitáveis.

 

E se para o Criciúma está ruim, imagina para os adversários? Tem muito clube se reapresentando nesta semana, com dias a menos na comparação com o Tigre.

 

A culpa disso tudo passa pela Federação Catarinense de Futebol (FCF) com a ciência dos clubes. É insano colocar 19 datas para um campeonato como o nosso, com dez times.

 

Como efeito de comparação, quem não for para a final, fará a mesma quantidade de jogos de um turno inteiro do Brasileirão. E o detalhe: a última rodada da primeira fase está marcada para o dia 1 de abril. Ou seja, são 18 jogos em dois meses e meio ou uma partida a cada quatro dias. É surreal para um começo de temporada! Não há técnico que implante teu trabalho, tampouco preparador físico que faça o time ter pernas.

 

O pior é que todo mundo sai perdendo nessa, não só o Criciúma, que terá pouco tempo para se preparar. Isso passa pelos adversários, que também terão poucos dias de treino e, principalmente, o torcedor, o grande cliente do produto Campeonato Catarinense, encurralado em uma montoeira de datas que deve derrubar o físico dos times e forçar os treinadores a fazer o básico, serem pouco inventivos e fazerem o mais do mesmo com planteis que ‘male, male’ consegue treinar.

 

O reflexo disso é bem claro: a qualidade dos jogos ficará ainda mais baixa.

 

Em meio a isso, me vi refletindo algo: chegará algum momento que o Criciúma dará as costas para o Estadual e focará nos torneios nacionais? O Campeonato Catarinense está cada vez menos rentável, com jogos pouco atrativos, times cada vez mais enfraquecidos e, agora, até mesmo desvalorizado pela televisão.

 

Poucas coisas sustentam o estadual, quase todas supérfluas. Uma delas é a mística, é aquele prazer de enfrentar um rival local e derrota-lo. A outra é a nossa cultura, sempre baseada nas taças, e para os times catarinenses, o estadual é uma das poucas, senão única, chance de erguer um troféu.

 

Entendo o lado do torcedor. Quer sempre ser o melhor, quer a taça exposta com orgulho numa sala. Mas o cenário hoje é outro. Ganhar um estadual não indica força quando pensamos no contexto nacional. O Catarinense, então, é um dos campeões em ilusões. E o pior: nem pra encher o caixa está dando.

 

Sonho com o dia em que o Criciúma, através de seus dirigentes e comissão técnica, baterá o pé, pensará alto, em fortalecer o clube nacionalmente e deixará o estadual de lado. Focará em uma pré-temporada forte e decente, com carta-branca para um treinador implantar um modelo de jogo condizente com as características do Tigre. Que entrasse com os titulares no meio da competição só para ajustar o time e começar com tudo no Brasileiro.

 

Seria uma quebra de cultura gigante, quase uma revolução que não seria vista com bons olhos pela grande maioria, desde imprensa e, principalmente, torcida. Nosso estadual ainda vive de nome, e internamente ele tem essa força. Por isso é um sonho impossível. Mas não custa torcer. De uma crítica pertinente poderia vir uma mudança de balançar as estruturas.

 

Conteúdo adicional: para quem quer entender mais o que é uma pré-temporada e qual sua importância na formação de um time, recomendo a leitura de um post do blog do jornalista e analista de desempenho Renato Rodrigues, que retrata bem como esse período de treinos tem seu valor, assim como os treinamentos precisam ser encarados cada vez mais seriamente.