A infância pede presença
Quando foi que o silêncio deixou de fazer parte da infância?
Em meio ao excesso de estímulos e ocupações, crianças podem estar perdendo algo essencial: o tempo livre para imaginar, criar e se encontrar dentro de si mesmas
Vivemos em um tempo em que o vazio parece ter se tornado um incômodo. O silêncio inquieta. A pausa incomoda. E o tédio, muitas vezes, é tratado como um problema que precisa ser resolvido rapidamente.
Sem perceber, muitos adultos passaram a acreditar que uma boa infância é aquela em que a criança está sempre ocupada, entretida ou fazendo alguma coisa. Se sobra tempo, preenche-se. Se há silêncio, liga-se algo. Se a criança diz que não sabe o que fazer, logo surge uma atividade, uma distração ou uma solução pronta.
Mas em que momento começamos a acreditar que a infância precisa estar cheia o tempo todo?
Existe uma diferença importante entre cuidado e excesso. Cuidar não é preencher cada minuto da criança com tarefas, sons e estímulos. Amar também não significa impedir frustrações, pausas ou desconfortos. O desenvolvimento infantil acontece, muitas vezes, justamente nesses espaços que os adultos tentam evitar.
Aos poucos, estamos construindo infâncias muito estimuladas e pouco acostumadas ao vazio.
Mas o vazio também ensina.
É no silêncio que a criança organiza pensamentos. É na pausa que observa o mundo com mais atenção. É no tempo livre que a imaginação encontra espaço para surgir. Muitas brincadeiras espontâneas nascem exatamente quando não há nada pronto.
O tédio, tão evitado hoje, nem sempre representa falta de algo. Muitas vezes, ele é o início de uma descoberta.
Quando a criança não recebe imediatamente entretenimento ou respostas prontas, ela pode inventar, criar, experimentar e desenvolver autonomia. Aprende, inclusive, a sustentar pequenos desconfortos e perceber que nem todo instante precisa ser preenchido.
Talvez uma das maiores dificuldades da vida atual seja aceitar que nem tudo precisa ser produtivo, acelerado ou divertido. E isso também vale para a infância.
Crianças não precisam estar felizes o tempo inteiro. Não precisam viver cercadas de estímulos constantes. Elas também precisam de pausas. Precisam de silêncio. Precisam de tempo livre. Precisam de momentos em que, aparentemente, nada está acontecendo.
Porque, muitas vezes, é exatamente ali que algo importante está acontecendo por dentro.
Talvez a pergunta não seja apenas quando o silêncio deixou de fazer parte da infância.
Talvez a verdadeira pergunta seja: ainda estamos permitindo que nossas crianças tenham tempo para se encontrar dentro de si mesmas?
Porque uma infância cheia demais de ruídos pode até parecer ocupada por fora, mas, por dentro, talvez esteja perdendo o espaço onde a imaginação, a autonomia e a própria identidade começam a nascer.



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