A infância pede presença
O que vemos quando paramos
Reflexão mostra como o uso constante do celular tem reduzido nossa capacidade de contemplar os pequenos momentos do dia a dia e estar presente na vida
Há alguns dias, uma mensagem recebida por uma de nós deu origem a esta reflexão.
Era o relato de uma adolescente que voltava para casa de ônibus. Enquanto observava a cidade pela janela, ela escreveu:
"Percebi como o celular influencia as pessoas. Quando o sinal fecha, a maioria dos motoristas já pega o celular que estava no colo. Parece que esperar um minuto virou uma tarefa difícil. Hoje está um dia lindo, ensolarado, mas parece que ninguém liga. As pessoas deixaram de admirar a vida. Olham para o céu só para reclamar do tempo ou para postar uma foto."
Aquelas palavras nos fizeram pensar. Talvez porque descrevam uma cena tão comum que já deixou de nos causar estranhamento.
O sinal fecha. Quase automaticamente, a mão procura o celular. Não importa se a espera será de trinta segundos ou de um minuto. O impulso parece sempre o mesmo: preencher qualquer intervalo com uma tela.
Sem perceber, fomos desaprendendo a esperar. E, junto com a espera, talvez estejamos perdendo algo ainda mais precioso: a capacidade de contemplar.
Observar o movimento da cidade.
Perceber as pessoas.
Reparar nas árvores.
Sentir o vento.
Olhar para o céu.
Ou simplesmente deixar os pensamentos seguirem seu próprio caminho.
Pequenos momentos que sempre fizeram parte da vida, mas que hoje são rapidamente substituídos por mais uma notificação.
A neurociência já demonstra que nosso cérebro se adapta às recompensas imediatas. Aos poucos, o silêncio começa a incomodar, o tédio parece insuportável e qualquer pausa desperta o desejo de buscar um novo estímulo.
O problema não está apenas no celular. Está na dificuldade crescente de permanecermos presentes.
E isso nos leva a uma pergunta importante: se nós, adultos, já temos dificuldade em permanecer um minuto observando o mundo ao nosso redor, como as crianças aprenderão o valor da contemplação, da curiosidade e da presença?
A vida não acontece apenas nos grandes acontecimentos. Ela acontece justamente nos pequenos intervalos.
Enquanto esperamos o sinal abrir.
Enquanto observamos a chuva chegar.
Enquanto uma criança aponta uma nuvem diferente no céu.
Enquanto alguém segura nossa mão durante uma caminhada.
Talvez esteja na hora de recuperar esses momentos.
Não porque a tecnologia seja uma inimiga, mas porque nenhuma tela é capaz de substituir a beleza da vida acontecendo diante dos nossos olhos.
Enquanto o sinal está fechado, a vida continua seguindo seu caminho.
A pergunta é: nós ainda estamos olhando para ela?



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