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  • Morro da Fumaça, 15/10/2026
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    A infância pede presença

    Infância não é algo que se compra. É algo que se vive

    Talvez, em algum momento, tenhamos complicado demais aquilo que uma criança realmente precisa para viver uma boa infância.


    Infância não é algo que se compra. É algo que se vive

    Nós, adultos, queremos oferecer o melhor aos nossos filhos. Queremos proporcionar oportunidades, passeios, cursos, brinquedos, festas, viagens. Queremos que tenham acesso a experiências que consideramos importantes e, muitas vezes, até àquilo que nós mesmos não tivemos.

    E não há nada de errado nisso.

    A questão é quando, sem perceber, começamos a associar uma infância feliz à quantidade de coisas e experiências que conseguimos proporcionar. Como se fosse necessário fazer cada vez mais para garantir que nossos filhos estejam aproveitando essa fase da vida.

    Mas será que uma boa infância precisa estar sempre cheia?

    Essa pergunta ganhou um significado especial para nós depois de uma experiência que vivemos na última quarta-feira, 30/09, no Shopping Della, durante o desfile Viver a Infância

    Em meio às crianças, às famílias e a tudo o que havia sido preparado para aquele momento, uma cena dizia muito sobre aquilo em que acreditamos.

    As crianças entraram levando livros, brinquedos e outros elementos que fazem parte do universo infantil. 

    Mas talvez o mais bonito não estivesse exatamente no que carregavam nas mãos.

    E sim na maneira como viveram aquele momento.

    Encontraram amigos, sorriram, brincaram, se movimentaram, se divertiram. Algumas seguiram o que havia sido combinado, outras simplesmente se deixaram levar pela alegria e pela espontaneidade.

    E estava tudo bem.

    Porque eram crianças sendo crianças.

    Talvez por isso aquele desfile tenha deixado uma reflexão que vai muito além de uma passarela: do que uma criança realmente precisa para viver uma boa infância?

    Muitas das experiências mais importantes para o desenvolvimento de uma criança não podem ser compradas.

    Elas cabem no cotidiano.

    No tempo para brincar sem que alguém diga exatamente como. Na oportunidade de inventar uma história e mudar tudo no meio dela. Em correr, pular, mexer na terra, desenhar, folhear um livro, construir alguma coisa e depois desmontar.

    Estão também no encontro com outras crianças.

    Nas brincadeiras em que é preciso combinar regras, dividir espaços, discordar, esperar, fazer as pazes e descobrir que nem sempre tudo acontece do jeito que imaginamos.

    Estão na presença dos adultos.

    Não de adultos que precisam entreter ou organizar cada minuto, mas daqueles que olham, escutam, contam histórias, colocam limites, acolhem e estão disponíveis quando necessário.

    E estão até nos espaços aparentemente vazios.

    Naquela tarde em que não há passeio marcado. No momento em que ninguém preparou uma programação. No conhecido “não tenho nada para fazer” que, algum tempo depois, pode terminar em uma cabana feita com almofadas, uma caixa que virou outra coisa ou uma brincadeira que nasceu sem que ninguém tivesse planejado.

    Talvez tenhamos sofisticado demais a ideia do que significa proporcionar uma boa infância.

    Na vontade de oferecer tanto, corremos o risco de não perceber o valor daquilo que parece simples.

    A história antes de dormir. A conversa dentro do carro. O encontro com os amigos. O colo depois de um dia difícil. Uma receita preparada junto. O livro escolhido pela décima vez. Uma caminhada. Uma risada que surgiu por uma bobagem qualquer.

    São experiências pequenas aos olhos de um adulto, mas que ajudam a construir vínculos, memórias, autonomia, imaginação, segurança e pertencimento.

    Claro que passeios, presentes, viagens e experiências especiais também podem fazer parte de uma infância feliz.

    A questão não é deixar de oferecê-los. Muito menos criar uma oposição entre o simples e aquilo que podemos proporcionar aos nossos filhos.

    É apenas lembrar que uma infância rica não é necessariamente aquela em que coube mais coisas.

    É aquela em que houve espaço para viver aquilo que só pode ser vivido enquanto se é criança.

    Talvez tenha sido isso que vimos naquela quarta-feira.

    Entre livros, brinquedos, encontros e brincadeiras, aquelas crianças não estavam apenas participando de um desfile chamado Viver a Infância.

    Elas estavam fazendo exatamente isso.

    Vivendo.

    E talvez, em meio a tantas coisas que desejamos oferecer aos nossos filhos, possamos trocar uma pergunta.

    Em vez de pensar somente: “O que ainda posso proporcionar ao meu filho?”

    De vez em quando, podemos nos perguntar:

    “Do que ele precisa ter tempo para viver?”

    Porque a infância não precisa ser preenchida o tempo inteiro.

    Precisa ter espaço para acontecer.




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