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  • Morro da Fumaça, 03/11/2026
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    A infância pede presença

    Quando vencer se torna mais importante do que viver a experiência

    Artigo reflete sobre o impacto das expectativas dos adultos e destaca a importância de valorizar o esforço, a experiência e o desenvolvimento emocional das crianças.


    Quando vencer se torna mais importante do que viver a experiência

    Toda família gosta de ver seus filhos conquistando algo. Seja em uma apresentação, em uma competição esportiva ou em uma atividade da escola, é natural torcer, vibrar e desejar que tudo dê certo. Afinal, quando amamos alguém, também queremos vê-lo feliz, confiante e realizado.

    Mas será que, em alguns momentos, nossas expectativas acabam sendo maiores do que aquilo que a própria criança espera de si?

    Uma criança pode participar de uma competição simplesmente porque gosta daquela atividade. Pode sentir alegria por estar ali, orgulho por ter conseguido se apresentar ou satisfação por ter superado a própria timidez. Para ela, talvez a maior conquista já tenha acontecido antes mesmo de o resultado ser anunciado.

    O problema começa quando o olhar do adulto fica tão voltado para o resultado que deixa de perceber tudo o que a criança viveu até chegar ali.

    Às vezes, ela estava satisfeita com sua participação, mas percebe a decepção dos pais. Ouve comentários sobre o que poderia ter feito melhor, comparações com outras crianças ou questionamentos sobre o resultado. Aquilo que poderia se transformar em uma lembrança feliz acaba acompanhado da sensação de que não foi suficiente.

    É importante compreender que incentivar não é o mesmo que cobrar. Podemos ensinar nossos filhos a se dedicar, a assumir compromissos e a buscar seus objetivos sem fazer com que sintam que precisam vencer para receber nossa aprovação.

    Ganhar é uma experiência boa, que merece ser celebrada. Perder pode trazer tristeza, raiva e frustração. E não há problema em sentir tudo isso. A infância também é o tempo de aprender que nem sempre as coisas acontecem como desejamos, que outras pessoas também têm capacidades e que um resultado não define nosso valor.

    Mas como ensinar uma criança a lidar com a derrota se nós, adultos, não conseguimos aceitar que ela aconteça?

    As crianças observam muito mais do que imaginamos. Percebem nossas expressões, escutam nossos comentários e reconhecem quando estamos decepcionados, mesmo que tentemos disfarçar. A maneira como reagimos às conquistas e às dificuldades também ensina.

    Isso não significa esconder sentimentos ou fingir que perder não importa. Significa mostrar que podemos ficar tristes com um resultado e, ainda assim, reconhecer o esforço, respeitar quem venceu e seguir em frente.

    Talvez, depois de uma apresentação ou competição, antes de perguntar pela colocação, possamos perguntar como a criança se sentiu. Do que mais gostou? O que foi difícil? Gostaria de participar novamente? São perguntas simples, mas que ajudam a colocar a experiência dela no centro da conversa.

    Também precisamos lembrar que nossos filhos não vieram ao mundo para realizar os sonhos que não conseguimos alcançar. Eles têm seus próprios interesses, habilidades, desejos e caminhos. Nosso papel é acompanhá-los, oferecendo incentivo e segurança para que descubram quem são e aquilo que gostam de fazer.

    E é aqui que a presença ganha um significado ainda maior. Estar presente não é apenas assistir, fotografar, aplaudir ou comemorar uma conquista. É conseguir enxergar a criança para além do resultado, acolher sua frustração sem aumentá-la e demonstrar que nosso amor e nossa admiração não dependem de um troféu.

    Haverá dias de vitórias, de aplausos e de muita alegria. Em outros, as coisas não sairão como esperado. E nossos filhos precisarão saber que, em qualquer uma dessas situações, continuaremos ao lado deles.

    Porque, quando a infância é vivida sob o peso de tantas expectativas, corremos o risco de transformar experiências que deveriam trazer descobertas e boas lembranças em uma busca constante por aprovação.

    Que nossos filhos possam crescer sabendo que vale a pena tentar, mesmo quando não se vence. E que, ao procurarem nosso olhar depois de uma conquista ou de uma decepção, encontrem aquilo de que mais precisam: a segurança de serem amados exatamente como são.




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