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  • Morro da Fumaça, 21/10/2026
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    A infância pede presença

    Quero diminuir as telas do meu filho. Mas por onde começo?

    Mudanças graduais, limites consistentes e mais presença dos adultos ajudam a construir uma relação mais saudável das crianças com as telas


    Quero diminuir as telas do meu filho. Mas por onde começo?

    Talvez você já tenha percebido que as telas estão ocupando um espaço maior do que gostaria na rotina do seu filho.

    Ele só aceita comer assistindo a um desenho. Entra no carro e já pede o celular. No restaurante, o aparelho precisa estar sobre a mesa. Quando está entediado, procura uma tela. E, quando você tenta dizer que não, vêm o choro, a irritação, a insistência.

    Você sabe que precisa mudar. Talvez já tenha tentado. Mas, depois de alguns minutos de conflito, acaba cedendo.

    E então vem aquela sensação: “Eu sei que preciso diminuir, mas não sei mais como fazer isso.”

    Se você se reconhece nessa situação, talvez o primeiro passo seja entender algo importante: quando a tela já faz parte de vários momentos do dia, simplesmente retirá-la pode não ser tão fácil. Não estamos falando apenas de desligar um aparelho. Estamos falando de mudar uma rotina que a criança aprendeu e passou a esperar.

    Por isso, não comece tentando mudar tudo de uma vez.

    Escolha um momento.

    Pode ser uma das refeições, o trajeto de carro, os minutos antes de dormir ou aquele período em que a criança costuma pedir o celular. Comece por um espaço possível dentro da rotina da sua família e transforme aquele momento em um tempo sem telas.

    Se a escolha for uma refeição, por exemplo, converse antes com a criança. Explique, de acordo com a idade, que vocês vão começar a fazer aquele momento de outra forma. Tire o aparelho da mesa e, de preferência, do campo de visão. E lembre-se: os adultos também precisam participar dessa mudança. É difícil ensinar que a mesa é um lugar sem telas enquanto o celular dos pais permanece ao lado do prato.

    Provavelmente, no início, haverá resistência.

    A criança pode reclamar, pedir muitas vezes, dizer que não quer comer ou que está entediada. Isso não significa que você esteja fazendo algo errado. Ela está diante de uma mudança em algo que já conhecia e que fazia parte da sua rotina.

    É justamente aí que a consistência do adulto se torna tão importante.

    Se a tela é retirada e devolvida depois de muita insistência, a criança aprende que insistir pode fazê-la voltar. Limite não precisa ser grito, ameaça ou castigo. Pode ser uma decisão sustentada com calma, acolhendo a frustração da criança sem voltar atrás todas as vezes em que ela demonstrar descontentamento.

    Outro ponto importante é não pensar apenas no que será retirado, mas também no que poderá ocupar aquele espaço.

    No carro, pode entrar uma música, uma conversa sobre o caminho ou a observação do que aparece pela janela. Em uma espera, papel e lápis, um livro ou um brinquedo simples podem acompanhar a família. Antes de dormir, uma história pode começar a ocupar o lugar dos vídeos. No restaurante, talvez a criança participe mais da conversa, observe o ambiente, desenhe ou, simplesmente, aprenda aos poucos que esperar também faz parte da vida.

    Nem todo momento precisa, inclusive, ser preenchido.

    Esse talvez seja um dos maiores desafios para nós, adultos: suportar o “estou entediado” sem imediatamente oferecer alguma coisa. A criança também precisa descobrir o que fazer quando ninguém entrega um estímulo pronto. É nesse espaço que muitas brincadeiras começam, que a imaginação aparece e que ela vai construindo recursos próprios para lidar com a espera e com a frustração.

    E não se esqueça de olhar para a própria relação com o celular. Crianças aprendem muito mais observando a rotina dos adultos do que ouvindo aquilo que dizemos sobre ela. Se queremos construir momentos de presença, precisamos também estar disponíveis para vivê-los.

    Depois que um momento sem telas estiver mais estabelecido, escolha outro. E depois outro.

    Talvez sua família não consiga transformar toda a rotina hoje. Não precisa.

    Comece pela próxima refeição. Pelo próximo trajeto. Pela próxima história antes de dormir.

    Diminuir as telas não precisa ser uma guerra dentro de casa. Precisa ser um processo conduzido pelos adultos, com clareza, constância e presença.

    Porque, no fim, nosso objetivo não é apenas fazer a criança passar menos tempo diante de uma tela.

    É ajudá-la a descobrir, novamente, tudo aquilo que existe quando ela olha para além dela.

    Menos telas. Mais presença. Mais infância.




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