A infância pede presença
Nem toda frustração precisa de uma tela para desaparecer
Aprender a esperar, lidar com o “não” e enfrentar o tédio também faz parte do desenvolvimento emocional das crianças
Talvez uma das tarefas mais difíceis de ser pai ou mãe seja suportar a frustração de um filho.
O choro porque ouviu um não. A irritação porque precisa esperar. A reclamação porque está entediado. A frustração porque perdeu. O silêncio no banco de trás do carro. A demora no restaurante. A tarde em que, aparentemente, não há nada para fazer.
E nós, adultos, quase sempre queremos resolver.
Queremos distrair, oferecer alguma coisa, mudar de assunto, evitar o choro. Queremos preencher o silêncio. Queremos que passe logo. E, muitas vezes, a tela aparece justamente aí. Não porque a criança pediu, mas porque sabemos que ela funciona. O vídeo começa, o choro diminui, a espera parece mais curta e aquela contrariedade desaparece por alguns minutos.
Só que existe uma pergunta importante que talvez precisemos fazer: nosso papel é evitar que nossos filhos sintam desconforto ou ajudá-los a aprender o que fazer quando ele chegar?
Porque ele vai chegar.
A vida não será feita apenas de coisas que dão certo. Haverá esperas, perdas, decepções, limites, dias difíceis, planos que não acontecerão como esperado e momentos em que ninguém poderá oferecer uma distração para fazer aquilo passar.
E é justamente nas pequenas experiências da infância que começamos a construir recursos para enfrentar tudo isso.
É esperando a vez que a criança descobre que consegue esperar. É perdendo um jogo que aprende que pode se frustrar e continuar. É ouvindo um não que percebe que um desejo pode não ser atendido imediatamente. É diante do “não tenho nada para fazer” que, depois de algum tempo, talvez invente alguma coisa. É também no silêncio, quando não há uma tela, um brinquedo novo ou um adulto organizando cada minuto, que ela encontra espaço para observar, pensar, imaginar e criar.
Isso não significa deixar uma criança sozinha com aquilo que sente. Muito pelo contrário. Presença não é retirar todas as pedras do caminho. É estar por perto enquanto ela aprende a atravessá-las.
Podemos acolher o choro sem mudar o limite. Podemos reconhecer a frustração sem imediatamente fazê-la desaparecer. Podemos dizer “eu sei que você queria muito” e, ainda assim, sustentar um não. Podemos permanecer ao lado de uma criança entediada sem assumir a responsabilidade de entretê-la.
Talvez tenhamos confundido, em algum momento, uma infância feliz com uma infância sem frustrações, tristezas ou contrariedades.
Na tentativa amorosa de proporcionar aos nossos filhos tudo aquilo que desejamos para eles, corremos o risco de querer poupá-los de qualquer tristeza, espera ou frustração. Mas crianças emocionalmente fortes não são aquelas que nunca se frustraram. São aquelas que, aos poucos e com o apoio dos adultos, descobriram que conseguem atravessar uma frustração.
Resiliência não nasce quando tudo dá certo. Ela vai sendo construída justamente quando algo não acontece como gostaríamos e encontramos recursos para continuar.
Por isso, talvez precisemos olhar também para aqueles pequenos silêncios que tanto nos incomodam. Nem todo espaço vazio precisa ser preenchido. Nem todo tédio precisa virar uma proposta. Nem toda espera precisa de um celular. Nem toda tristeza precisa ser rapidamente transformada em alegria.
Há coisas importantes acontecendo justamente nesses intervalos.
Queremos filhos felizes, é claro. Talvez esse seja um dos desejos mais universais de quem ama uma criança. Mas a felicidade não pode se tornar uma obrigação permanente, nem o objetivo de eliminar qualquer experiência que cause incômodo.
Mais do que preparar nossos filhos para serem felizes o tempo todo, algo que a própria vida jamais poderá garantir, precisamos ajudá-los a se tornarem pessoas emocionalmente fortes, capazes de lidar com aquilo que sentem, enfrentar frustrações, esperar, recomeçar e seguir adiante.
A felicidade não precisa ser perseguida a cada minuto da infância. Muitas vezes, ela será consequência de uma criança que cresceu sabendo que a vida também tem silêncios, esperas, perdas e frustrações, e descobriu que é capaz de atravessá-los.




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